
Adolescência
E, depois, há um momento em que uma criança olha para os seus pais e descobre uma pequena fissura que a leva a pensar. E dá-se contra que eles não são nem tão fortes, nem tão serenos e equilibrados. Nem tão coerentes, tão esclarecidos e tão justos. Nem tão atentos e tão mágicos como eram vistos quando se era mais pequenino. E, por mais que tudo isto se passe em segredo e com uma enorme perplexidade dentro de um adolescente, é como se, quase de momento para o outro, se deixasse – aí, sim! – de acreditar no Pai Natal.
Os pais estão “lá”. Funcionam e protegem. Não se inibem de definir as regras. Acompanham, com orgulho, todos os degrauzinhos do crescimento dos filhos. Afligem-se com os saltos de humor, quase acrobáticos, de que eles são capazes. Barafustam com as manhas e rezingam com as “manias”. “Perdem-se” com a sua abertura às “modernices”. “Engolem” – mais percing menos tatuagem – a forma como eles compõem uma imagem. Sentem-se muito “perdidos” no corrupio das ideias e na forma, tantas vezes demagógica, com que eles perfilham “pontos de vista”. Assustam-se com a porta do quarto fechada.Com o “olhar fechado”. E com a forma “fechada” com que falam por murmúrios. Desistem de regular jogos e ecrãs.Alimentam pequenos caprichos. Ficam cansados – até eles próprios – de tanto se ouvirem. Irritam-se com a forma como as suas palavras “entram a 100 e saem a 1000” da cabeça dos filhos. Arrufam-se, amuam e fazem birras. Sentem-se trapalhões. Enternecem-se.Comovem-se. “Tiram-se do sério”. “Passam-se” com o tom das respostas, com aquilo que eles dizem e com o “revirar dos olhos” com que os “premeiam”. Ficam “desasados” quando eles se tornam “tábuas” nalguns abraços. Sentem-se desastrados, quando falam e falam, e não acertam… “uma”. E “entupidos”, quando fazem de conta que não vêem. Evitam o quarto deles. E as gavetas, claro. E evitam “ferver”com a forma como eles engonham. Ou como cismam. Arrepiam-se quando não se revêem nalguns amigos deles. E gelam quando se imaginam, mais velhos, a precisar deles.
Mas, afinal, quem deixa de acreditar no Pai Natal: os adolescentes, quando olham para os pais, ou os pais, quando se sentem perdidos na adolescência dos filhos?
Creditos: Eduardo Sá